Mauricio Lima é reconhecido por seu trabalho no Afeganistão, Líbia e Iraque. Em entrevista, ele aborda situações vividas na cobertura e fotos premiadas.
Fábio Tito
Do G1, em São Paulo (matéria originalmente publicada no site : g1.globo.com; em 17/08/2012 11h51
- Atualizado em
19/08/2012 13h14)
Em meio à cobertura jornalística de guerras civis e conflitos
internacionais no Oriente Médio, o olhar de um fotógrafo brasileiro tem
marcado e sido reconhecido como um dos mais sensíveis e
aprofundados.Lembre dos principais conflitos na última década: Mauricio
Lima estava lá, registrando para o mundo não só os bombardeios e as
trocas de tiro, mas principalmente a vida dos habitantes, que segue e se
adapta à guerra ao seu redor.
Seu olhar ajudou a retratar as invasões do Iraque e do Afeganistão na
guerra contra o terror, que custou mais de US$ 1,4 trilhão e tirou
milhares de vidas de civis e militares. E mesmo em meio ao caos da
situação no Iraque, a história de um menino que ficou cego num
bombardeio rodou o planeta através das lentes de Mauricio Lima e foi
transformada com a ajuda vinda de milhares de quilômetros de distância.
O menino Ayad posa com a foto que o retrata ainda antes do bombardeio. (Foto: Mauricio Lima)
Na Líbia, Mauricio estava a seis quadras de distância quando os
rebeldes capturaram Muammar Kadhafi, e a ditadura familiar mais
duradoura do último século foi deposta pela força do povo.
De volta ao Afeganistão no momento, o fotógrafo pretende retornar à
Líbia em outubro para dar continuidade ao ensaio "Libya Hurra" ("Líbia
Livre") feito ano passado, além de demonstrar preocupação sobre a atual
situação na Síria, país que recentemente negou visto de trabalho ao
fotógrafo.
Em entrevista ao G1, Mauricio relata como é o trabalho
em uma situação de guerra, o que guia seu olhar nas coberturas,
situações inusitadas e fatos que o surpreenderam ao longo dos últimos
anos em suas diversas viagens.
Lima trabalhou por mais de 10 anos para a agência francesa France
Presse, e nos últimos anos tem atuado de forma mais independente com
contribuições para o jornal americano "The New York Times". Já foi
eleito fotógrafo de agência do ano pela revista "Time" e teve trabalhos
premiados internacionalmente.
G1 - Você já esteve no Iraque em momentos diferentes ao longo
da última década. Como foi retratar essas mudanças? Como os iraquianos e
os soldados lidavam com a situação?
Mauricio - Estive no Iraque por um período total de um
ano, entre 2003 e 2011. Da primeira vez, tive mais contato com civis ao
viajar pelo país com um motorista iraquiano. Em 2004 a realidade era
completamente diferente. Aconteceram muitos sequestros e decapitações de
estrangeiros por rebeldes, sobretudo na região de Fallujah, onde o
clima era de perigo. A única oportunidade menos perigosa para fazer
algum tipo de trabalho seria acompanhar as tropas militares espalhadas
por diversas bases no país, de norte a sul. Mesmo com a saída das tropas
americanas ano passado, pretendo retornar a Bagdá assim que possível
para dar continuidade ao trabalho.
Percebi muitas vezes a maneira como os militares tratavam os
iraquianos, a humilhação dos presos, por exemplo. Sentia uma ligação
muito forte entre o momento político nos Estados Unidos e as operações
americanas no Iraque.
A foto de um iraquiano morto em Tikrit ficou em 2º
lugar no prêmio Pictures of the Year International
de 2004. (Foto: Mauricio Lima)
Acompanhando os soldados em patrulhas diárias e incursões noturnas, nos
momentos de folga dentro das bases, eles evitavam falar sobre posição
política, eram instruídos a isso. Mas com o passar do tempo, alguns
expressavam suas opiniões diante de tudo aquilo. A maioria deles havia
se alistado no serviço militar devido aos benefícios oferecidos pelo
governo, como a isenção de impostos e auxílios às famílias dos soldados.
Poucos com os quais conversei estavam lá por ideologia, patriotismo ou
por tradição familiar.
G1 - Alguma história específica te marcou mais ao relatar a vida dos iraquianos?
Mauricio - A história que mais me marcou foi a de um
menino cego que vi pela primeira vez quando estava a caminho de um outro
compromisso próximo a chamada "zona verde", em Bagdá. O pai dele pedia
esmolas na calçada, e me chamou a atenção o rosto dele, com uma
cicatriz. Houve uma empatia desde o começo. Isso era em dezembro de
2003.
Fiz meu primeiro contato com o pai dele, como manda a tradição no país -
não se fala diretamente com crianças ou mulheres. Ele tinha uma receita
médica dizendo que o tratamento para que o filho tivesse parte da visão
recuperada custava US$ 10 mil.
Tive sempre a ajuda do mesmo motorista iraquiano para as conversas.
Quando ele falou que eu era brasileiro, o semblante dos dois mudou, eles
sorriram. Há uma empatia grande por causa do futebol. Combinei de ir
até a casa deles, em Hilla, na região da Babilônia, que fica a 180km ao
sul de Bagdá. Queria mostrar a vida que o menino (Ayad Ali Brissam
Karim) levava mesmo com a guerra.
Com a ajuda do mesmo motorista, que servia de tradutor, soube que o
Ayad foi ferido durante a invasão americana, em abril de 2003. No
bombardeio, um tio dele morreu e a avó perdeu parte da perna esquerda.
Ayad perdeu a visão do olho direito e ficou só com 20% da do olho
esquerdo. Ele acabou saindo da escola porque sofria muito bullying dos
colegas por conta do olho e das marcas de queimadura no rosto.
Eu o fotografei com a única foto que ele tinha de si mesmo antes de
ficar cego. Era a foto do seu fichário escolar, da matrícula. Passei
alguns dias lá para mostrar o cotidiano do menino. E foi lá a primeira
vez em que caiu uma lágrima enquanto eu estava com a câmera no olho,
saindo da casa dele.
As fotos chamaram atenção quando as mandei para a central (da agência
France Presse), e acabou que eu mesmo escrevi um texto contando a
história do menino.
G1 - E você teve notícias do menino depois disso?
Mauricio - Aconteceu que, quase dois anos depois, em
outubro de 2005, quando fui selecionado para participar de um curso para
jovens fotógrafos até 30 anos em Amsterdã (Joop Swart, do World Press
Photo), que reúne renomados fotógrafos e importantes editores de várias
publicações internacionais. Através de uma editora da revista "Time",
que não me conhecia pessoalmente mas lembrou do meu nome, fiquei sabendo
sobre as consequências daquele ensaio.
Depois da publicação das fotos de Ayad pelo jornal "The Washington
Post", uma família americana se comoveu, foi ao Iraque em busca de Ayad e
o trouxe aos EUA para fazer a operação nos olhos. Quando ela me contou
isso, eu respondi: "Nem preciso saber de mais nada". Foi muito
importante saber que, apesar de não atingir meu objetivo principal de
acabar com a guerra, consegui ajudar um iraquiano. Tentei revisitá-lo em
2006 para entregar as fotos ampliadas e saber como ele estava desde
então, mas a violência impediu que eu voltasse. Mesmo assim, planejo um
dia reencontrá-lo, tenho isso bem claro em mente.
No Brasil, sua casa fica em São Paulo. O fato de passar longos períodos fora te faz olhar para o Brasil de maneira diferente?
do olhar à fotografia
Mauricio - Sim, com certeza. Por exemplo... Em 2011,
quando estive em Bagdá, o clima era outro, bem diferente das vezes
anteriores. Lá, tem um bairro chamado Karrada, onde já é possível sair à
noite com a família para jantar, se divertir. Em 2003, o povo vivia sob
toque de recolher, tinha que estar dentro de casa a partir das 7 da
noite.
Mesmo assim, a impressão que Bagdá me passou foi de uma cidade
segregada, cheia de muros, bloqueios, arame farpado para todo lado.
Existem miniguetos, e a questão da segurança privada está mais forte que
antes.
E isso está acontecendo aqui [em São Paulo], também, com pessoas se
fechando cada vez mais. As pessoas vivem aqui em um clima que muitas
vezes se assemelha ao que senti em Bagdá.
Isso me faz pensar muito nos desejos atuais da nossa sociedade e no
papel da imprensa diante disso. Sinto que a boa parte da grande mídia se
esquiva de refletir e aprofundar temas cruciais, como educação, que
afetam diretamente a vida de milhões de brasileiros por inúmeras razões.
Noticiar os fatos de maneira superficial, sem propor qualquer tipo de
discussão, tem sido o mais comum. Ser crítico talvez afaste anunciantes.
Nós precisamos de mais conscientização e menos ufanismo diante dos
problemas, e a imprensa não aborda isso da maneira como deveria fazê-lo.
Não vejo isto aqui (o Brasil) como algo sério. Cobri protestos no
Brasil em que a maioria estava ali usando o ato como desculpa para não
fazer nada, para matar trabalho ou aula. As pessoas têm que saber que os
protestos incomodam os políticos. Quando eu volto de um trabalho fora,
ter visto o que acontece por lá me deixa muito mais reflexivo sobre o
que não acontece por aqui, de as pessoas reivindicarem seus direitos.
G1 - Como foi o trabalho no Afeganistão em meio à presença das tropas dos EUA?
Mauricio - Passei dois meses no Afeganistão. O
primeiro foi acompanhando os fuzileiros navais americanos em Marjah, na
província de Helmand, sul do país. A região é uma das maiores produtoras
de ópio do mundo. O segundo mês foi em Cabul, fotografando a vida
cotidiana em diversos aspectos. Nesse período, desenvolvi o ensaio
"Afeganistão Apocalíptico", cujo objetivo era tentar estabelecer uma
relação entre a cultura afegã no seu cotidiano diante de uma ocupação
militar liderada pelos EUA.
O que me chamou atenção antes mesmo de ir para lá, foram as primeiras
imagens do povo afegão após o 11 de Setembro, a aparência do povo. Eles
tinham um aspecto que me remetia à minha infância, ao período em que fiz
a primeira comunhão na igreja. Aqueles senhores idosos com barba
enorme, suas vestimentas... Não consigo traduzir a identificação que
tive. Você chega lá e parece que voltou séculos no tempo, principalmente
nas áreas mais remotas. Mesmo com 30 anos de ocupação militar, com a
passagem dos russos e agora dos americanos, a vida e a cultura são
mantidas de forma plena.
G1 - E que aspectos dessa cultura são vistos nas suas fotos?
Mauricio - No Afeganistão eu conheci o esporte mais
tradicional do país, chamado "buskashi". Dois times montando cavalos
disputam pela carcaça de uma cabra morta. O animal não recebe nenhum
preparo, é simplesmente morto para a partida.
Outra coisa que me chamou a atenção foram os banhos coletivos. Toda
sexta-feira, os homens se reúnem nesses chuveiros-saunas públicos e
ajudam uns aos outros no banho, em uma tradição que precede as orações
do dia, considerado sagrado. Eles precisam estar limpos para as orações.
Por fim, tem a questão das mulheres de burca afegã, a azul, que só
existe lá. É considerado muito desrespeitoso fotografar mulheres no
Afeganistão, e, das poucas vezes em que fiz isso, fui cercado por homens
questionando qual era o meu propósito com aquelas fotos. Mas é um traço
muito forte da cultura deles, e eu precisava mostrar aquilo de alguma
forma - não poderia voltar sem aquela foto.
G1 - O seu ensaio 'Afeganistão Apocalíptico' trata de mais do que isso, certo?
Mauricio - Esses aspectos culturais contrastaram com a
parte do trabalho inicial feita com os fuzileiros navais americanos
(Marines). A idéia era mostrar com mais intimidade a vida daquele grupo
de homens. Orgulhosos, exibiam suas tatuagens, muitas delas com conteúdo
militar ou patriótico, e também uma forte ênfase de culto ao corpo, com
malhação intensa e exercícios físicos executados de modo insano, uma
característica tradicional dos Marines.
Esse trabalho foi reconhecido pela revista "Time" como o fotógrafo de agência do ano de 2010.
Nesse caso, o que mais me comoveu foi a comparação feita com uma das
minhas maiores inspirações, o lendário [Henri] Cartier-Bresson.
G1 - Como foi fotografar a Líbia justamente no período que culminou na queda do ditador Muammar Kadhafi?
Mauricio - O que me chamou atenção na Líbia foi o fato
de ter sido o primeiro país árabe em conflito que visitei onde não
havia olhar hostil da população em relação a estrangeiros. Fui recebido
de maneira surpreendente desde a fronteira com a Tunísia até Sirte, nas
duas semanas em que estive ao lado dos rebeldes.
Na chegada, passei três dias em Trípoli (capital), e depois fui a
Sirte, onde o Kadhafi foi morto. Lembro de pensar que Muammar Kadhafi
podia, de fato, estar em Sirte, sua cidade natal. Pensei no Saddam
Hussein, preso no Iraque, também em sua cidade natal... Os líderes
árabes não costumam abandonar suas origens, preferem morrer nas mãos do
próprio povo, como disse a mim Mansour Dhao,um dos homens de confiança
que esteve todo o tempo com Kadhafi em seus momentos finais em Sirte,
ferido e capturado pelos rebeldes. Presumo que este também seja o futuro
de Bashar Al-Assad na Síria, caso ele não deixe o poder.
No dia em que ele foi capturado e morto, eu estava a cerca de seis
quadras de distância daquela tubulação onde o encontraram escondido. O
motorista que trabalhava comigo naquele dia me perguntou onde eu estava,
pois ele afirmou ter agredido e fotografado Kadhafi antes de ser
executado por um grupo de rebeldes, lá mesmo próximo à tubulação, com
tiros de revólver. O que me restou naquele instante foi retornar a
Misrata e fotografá-lo em exibição pública por uma semana, numa câmara
frigorífica, dentro de um entreposto.
Confiram mais detalhes no link: http://g1.globo.com/fotos/noticia/2012/08/fotojornalista-brasileiro-conta-sobre-cliques-em-guerras-no-oriente-medio.html
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